Considerações finais de Alice e da AC2
Missão cumprida
"Subir ao palco, representar uma personagem e receber os aplausos é o lado glamouroso da profissão."
Li isso em um blog cujo nome não me recordo... Sim, esse é o lado glamour da profissão, mas e o que vem antes? O processo de montagem, os bastidores... Com certeza tudo estava bem longe de parecer com glamour. Mas, sabe de uma coisa? No fim tudo vale a pena. :)
Essa semana me deparei com um desafio, analisar quais os procedimentos de teatrólogos como Stanislavski, Grotowski, Meyerhold, Brecht, Artaud... (Eu realmente deveria ter tirado foto do quadro, pois não me lembro dos outros. rsrs) Estariam presentes em Alice.
Os textos utilizados nos debates desta semana (até mesmo o de jogos) foram valiosos para mim, pois consegui analisar e esclarecer coisas que, para mim, antes eram obscuras.
Como quando tive que executar uma partitura corporal de oito ações físicas e ao executa-la fui questionada pela professora, pois estava fazendo errado. Eu não entendi na hora e até me revoltei pois pensava estar certa, porem, ao ler o texto de corpo minha ficha caiu e refleti.
"Não interprete nada, apenas execute cada ação"
Stanislavski dizia isso nos ensaios visando impedir que o ator atuasse de maneira mecânica e falsa.
Criei uma partitura onde "Alice" executava os movimentos, mas, e eu? Aquilo realmente soou bem falso, eu me forcei a fazer por causa da personagem, as ações não estavam naturais e o ator (eu) não teve pulsão.
Mas no fim deu tudo certo, a construção da minha personagem foi algo que surgiu de mim.
No LIVRO DO ATOR. part1. eu falo sobre as minhas inspirações, o material para compor as personagens.
Mas é lógico que mesmo tendo me inspirado em obras já existentes eu queria ser original, então eu decidi recorrer a uma fonte muito rica e até então pouco aproveitada: EU.
A partir de monólogo interior eu consegui estabelecer uma relação com a minha personagem. A minha apropriação fluiu como uma colagem de fragmentos que extrai de minhas memórias psicofísicas junto com a ideia base da personagem em texto para assim concluir em um novo ser que seja pelo menos um pouco original.
Claro, também fiz recortes de minhas inspirações, porem, a extração do "eu" me ajudou a não ser uma cópia de outras Alices já existentes.
Outra coisa que utilizei também foi "memória emotiva", só que infelizmente tive algum bloqueio no dia da estreia e eu não consegui gerar pulsão por meio de memória emotiva, talvez tenha sido o nervosismo.
Em um dos ensaios da cena 4, na sala 12, eu consegui atingir esse estado emocional para gerar veracidade. O ponto de partida desta cena era o final da cena 3, no qual Alice esta triste e sozinha. Nesse momento eu me apoiava na lembrança de meu pai, meus olhos enchiam de lágrimas e cheguei a chorar de verdade por alguns instantes.
Talvez Stanislavsky estivesse certo em achar que a memória emotiva fosse menos efetiva, pois ele acreditava que após um tempo vivenciando a mesma memória ela não causaria mais a mesma emoção no ator. Ou talvez tenha sido o fato de eu não ter tido tempo de fazer queimar esta memória em mim pois a transição de cena foi rápida. Não sei dizer ao certo...
É curioso pensar em como Alice, naquele momento, queria muito estar em casa ao lado dos pais, da irmã e da gata Dinah... Alternando comigo que queria estar com meu pai e que ele estivesse bem.
Um momento de hibridismo que constatou que eu e Alice somos um.
Técnica de repetição e Meisner em ALICE?
Enquanto, individualmente, eu tentava conciliar Stanislavski e Strasberg, coletivamente, talvez o que rolava era mais pra Meisner...
Meisner dizia que atuar as vezes era "comportamento", ou seja, você não precisa necessariamente falar.
Seu corpo, sua face e até mesmo o seu olhar podem falar por você em cena.
Isso quer dizer que, não é só porque você não tem falas que você não faz diferença em cena, você pode fazer muita diferença. Ser espontâneo em cena e reagir ao que esta acontecendo a sua volta. Isso me lembra muito os viewpoints que utilizamos na peça.
A repetição também pode proporcionar naturalismo, podendo dar brechas para a improvisação e até mesmo brincar em cena.
Bom... O Stanislavski não foi deixado de lado, mas mesmo assim houve algo de Brecht em Alice.
Como, por exemplo, o fato de que cada ator tinha mais de uma personagem e também por existir varias Alices encenadas por atrizes diferentes, isso pode ter gerado uma perspectiva de distanciamento. Afinal, isso da a ideia de que todos os atores podem ser qualquer um dos personagem e vice versa.
“atuar é a habilidade de viver verdadeiramente sob circunstâncias imaginárias”
- Sanford Meisner
Lembro que em uma das primeiras aulas, nas quais ainda estávamos estudando possibilidades de cenas, tivemos que abdicar do texto e improvisar, eu escolhi a cena 8 e assim ela nasceu, com o passar do tempo ela foi se moldando mas no fim a base era a mesma utilizada nesta aula na qual improvisamos.
Fluiu tão bem que, pelo menos eu, nunca mais precisei pegar no texto para ver o que deveria ou não dizer pois o texto sai naturalmente.
Método de Atuação Sanford Meisner...O treinamento começa com um intensivo trabalho de improvisação, incluindo exercícios de repetição nos quais o ator aprende a colocar sua atenção para fora, tornar-se instintivo e focar no comportamento do parceiro. Com isso, elimina-se a intelectualização dos atores, tornando-os espontâneos para o que está acontecendo no momento presente.Na segunda etapa, o foco está na imaginação: As circunstâncias imaginárias. São realizados exercícios para trazer o que é mais profundo e significativo para o ator através de ações físicas específicas.O método trabalha uma série de exercícios interdependentes no qual um exercício leva ao próximo, de complexidade crescente para desenvolver uma improvisação apoiada na escuta e na resposta espontânea, gerando uma “atuação verdadeira dentro de circunstâncias imaginárias”. O foco está na escuta. Escutar, responder e se manter no momento presente são os fundamentos do trabalho.Depois deste processo, o ator emerge um ser mais honesto e forte com ferramentas prontas para atuar em filme, televisão e no palco. Toda esta técnica tem como objetivo tornar o ator mais forte, desejoso e disponível para deixar que o mistério ocorra.
Meisner dizia que atuar as vezes era "comportamento", ou seja, você não precisa necessariamente falar.
Seu corpo, sua face e até mesmo o seu olhar podem falar por você em cena.
Isso quer dizer que, não é só porque você não tem falas que você não faz diferença em cena, você pode fazer muita diferença. Ser espontâneo em cena e reagir ao que esta acontecendo a sua volta. Isso me lembra muito os viewpoints que utilizamos na peça.
A repetição também pode proporcionar naturalismo, podendo dar brechas para a improvisação e até mesmo brincar em cena.
Brecht e a teoria do distanciamento?
"O ator e o espectador deveriam se distanciar um do outro e cada um de si próprio."
- Eugen Brecht
De acordo com o que eu entendi da teoria do distanciamento, Brecht sugeria que a peça tivesse o intuito de fazer com que o espectador tirasse uma lição permanente dela e não só fazer com que se
identifiquem emocionalmente com ela.
Também haveria de ter um distanciamento entre ator e personagem, de acordo com ele não pode haver metamorfose.
"O ator, em cena, jamais chega a metamorfosear-se integralmente na personagem. O ator não é nem Lear, nem Harpagon, nem Schweyck, antes os apresenta. Reproduz suas falas com a maior autenticidade possível, procura representar sua conduta com tanta perfeição quanto sua experiência humana o permite, mas não tenta persuadir-se (e dessa forma persuadir, também, os outros) de que nele se metamorfoseou completamente."De acordo com essa teoria o método Stanislavskiano deveria ser deixado de lado.
Bom... O Stanislavski não foi deixado de lado, mas mesmo assim houve algo de Brecht em Alice.
Como, por exemplo, o fato de que cada ator tinha mais de uma personagem e também por existir varias Alices encenadas por atrizes diferentes, isso pode ter gerado uma perspectiva de distanciamento. Afinal, isso da a ideia de que todos os atores podem ser qualquer um dos personagem e vice versa.
Além de que, há uma quebra no elemento ficcional durante a transição da cena 11 para a 12, onde existe os "atores" trocando de roupa no palco para se tornarem outra personagem.
Ator santo e Ato total
Também acredito que tenhamos alcançado estes patamares. Mesmo que no começo tenhamos tido problemas, a entrega do elenco foi total.
Nos despimos de nossos pudores e receios, nos livramos da má vontade e do comodismo, literalmente saímos da zona de conforto. Nos tornamos "monstros".
Queríamos entregar ao publico uma adaptação majestosa e conseguimos.
Fizemos tudo o que tínhamos direito, aproveitamos bem todo o espaço, dilatamos nossos corpos e vozes com vontade, nos entregamos com verdade, fomos atores vivos em cena, explodimos e geramos pulsão, quebramos a quarta parede e causamos com a plateia.
Estou realmente orgulhosa da direção, produção, elenco e todos os envolvidos e estou especialmente orgulhosa de mim.
Nos despimos de nossos pudores e receios, nos livramos da má vontade e do comodismo, literalmente saímos da zona de conforto. Nos tornamos "monstros".
Queríamos entregar ao publico uma adaptação majestosa e conseguimos.
Fizemos tudo o que tínhamos direito, aproveitamos bem todo o espaço, dilatamos nossos corpos e vozes com vontade, nos entregamos com verdade, fomos atores vivos em cena, explodimos e geramos pulsão, quebramos a quarta parede e causamos com a plateia.
Estou realmente orgulhosa da direção, produção, elenco e todos os envolvidos e estou especialmente orgulhosa de mim.
"Alice, me empresta as maravilhas do teu país?"
Emprestar? Não precisamos...
Todos nós somos Alices, Coelhos, Chapeleiros e Lebres, Reis e Rainhas e o país das maravilhas sempre foi nosso!















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