Desculpa o textão...
Meu pai era acamado já fazia 2 anos e eu
era uma espécie de ajudante de enfermeira porque eu ajudava uma
enfermeira que minha tia tinha contratado, pois além de ser
acamado, meu pai tinha uma ferida na perna e isso precisava de cuidados já
que ele não conseguia mais trocar os curativos sozinho. Meu pai era
carreteiro e trabalhava viajando, eu praticamente fui criada só pela
minha mãe e tia e foi em uma dessas viagens que o problema dele começou.
Ele teve um acidente na estrada, eu não me lembro bem pois era bem
pequena mas me lembro de que eu e minha mãe só descobrimos porque passou
na TV, meu pai estava dirigindo e o caminhão tombou, ele saiu com vida,
mas a perna foi ferida pelas ferragens e ele tinha batido a cabeça.
Lembro de quando ele chegou em casa depois disso, ele não podia ficar se
mexendo muito e minha mãe precisou dar banho nele, ele tinha uma parte
da cabeça raspada e lá ele recebeu pontos, a perna estava enfaixada com
ataduras grossas.
Depois de um tempo a
cabeça dele ficou boa, mas a perna não. Ele trocava os curativos todo
dia e não tinha mudança na ferida... Ela simplesmente não fechava.
Minha
mãe decidiu que ele tinha que ir ao médico outra vez e o levou, lembro
que ela pagou um tratamento hiperbárico para ele. O tratamento funcionou
um pouco mas não fechou completamente a ferida, o tratamento era caro e
minha mãe não pode mais pagar por ele.
O
médico disse para o meu pai para ele largar o caminhão e que era melhor
ele não viajar mais, porem, meu pai é teimoso e orgulhoso e não quis...
Afinal, ele só sabia fazer aquilo.
Assim
que ele melhorou ele voltou a viajar, só que, outro acidente aconteceu e
a perna voltou a abrir uma ferida e bem no mesmo local. De lá pra cá a
ferida nunca mais fechou, porem, ele andava normalmente, saia de casa
para fazer suas coisas e tudo, ele só não viajava mais porque minha mãe
vendeu o caminhão.
Há 3 anos atrás ele
caiu no meio da rua, foi a primeira queda dele, como eu disse ele era
orgulhoso e não queria ajuda e nem pena de ninguém, a gente só ficou
sabendo por os vizinhos disseram. A partir daí eu comecei a ir com ele a
todo lugar ou então eu ia pra ele resolver as coisas dele, apostas na
loteria por exemplo rsrs.
Um dia ele
quis ir ao supermercado e eu fui com ele, nesse dia ele teve a segunda
queda. Precisei pedir ajuda aos estranhos mas ele se recusou, queria
levantar sozinho. Mai pai era forte, passou por muita coisa na vida eu
acho, só sei que ele sempre foi sozinho, eu não conheço ninguém da
família dele, nem minha mãe conhece. Depois desse dia meu pai não saiu
mais de casa. Faz uns 10 anos que meus pai eram separados, eles não
dormiam no mesmo quarto, minha mãe dormia no meu e meu pai ficava com o
quarto de casal. Minha mãe dizia que não suportava o cheiro que vinha
dele, a perna dele cheirava mal... Ele cuidava da perna sozinho e talvez
não cuidasse direito, as vezes eu pensava que talvez ele não queria
mais ir ao médico com medo que amputassem a perna. Talvez isso tivesse
sido até melhor...
Minha mãe já não
estava mais nem aí pra ele, meu irmão é autista e não entende o que é
bem ou mal, dor ou sofrimento, meu irmão vive em um universo próprio.
Minha tia tinha a minha avó para se preocupar, minha avó tinha Alzheimer
e esclerose múltipla. Eu não sabia o que fazer.
A terceira queda foi decisiva pra ele decidir para de levantar da cama, ele tinha perdido a força das pernas.
Há dois anos atrás ele deitou na cama e não levantou mais, pelo menos não sozinho.
Minha
avó tava que passar por uma cirurgia que tirou uma pedaço do pé dela e
então minha tia contratou uma enfermeira para que cuidasse da ferida até
ela cicatrizar, essa era a chance, perguntei se ela poderia ver a
ferida do meu pai também. A enfermeira disse que era uma ferida muito
mal cuidada e que precisaria ser limpa, minha tia decidiu ser boa pessoa
e pagou um pouca a mais para que ela cuidasse do meu pai também. Porem,
meu pai não levantava mais (o máximo que ele conseguia era ficar
sentado) e ele precisava tomar banho, a ideia era eu segurar meu pai
pelas costas, levantar ele da cama e colocar ele em uma cadeira de rodas
e isso deu certo já que a enfermeira me ajudava, levávamos ele ao
banheiro e dávamos banho, voltávamos ela trocava o curativo dele
limpando bem a ferida e passando remédio. Tudo tava dando certo até que
minha avó não precisava mais da enfermeira, então minha tia decidiu que
meu pai também não. Minha tia disse que eu podia muito bem fazer o
trabalho da enfermeira já que eu via ela fazer todos os dias, a partir
daí fui eu que comecei a limpar a ferida e trocar as ataduras sozinha. A
parte do curativo não era um problema, afinal eu realmente aprendia
fazer, o problema era na hora do banho, não tinha ninguém para me ajudar
a por ele na cadeira. Comecei a chamar o meu irmão para me ajudar, mas
ele não conseguia fazer do jeito certo, acabei por dar um mal jeito no
joelho direito por causa do esforço que eu fazia em levantar o meu pai
da cama, mas depois de um tempo meu irmão conseguiu me ajudar a fazer de
um jeito certo.
Bom... Minha avó morreu
dia 14/06 do ano passado. Moro em uma casa de dois andares, tipo um
duplex, minha tia morava com minha avó em cima enquanto eu, minha mãe,
pai e irmão morávamos embaixo. Minha tia decidiu que não queria viver
sozinha mas que não iria descer pra morar com a gente, ela fez a gente
subir para morar com ela. Eu juro, meu pai tava muito melhor lá embaixo.
Foi só ele subir que ele começou a ficar mal, ele perdeu muito peso e
começou a dar feridas em outros lugares do corpo dele. Eu fiquei
desesperada, ele dizia que sentia muito mais dores e nem ficar sentado
ele conseguia mais, ele também começou a reclamar de cegueira. Chamei a
enfermeira de volta e ela trouxe consigo um médico, eles fizeram uns
exames e pediram outros, meu pai começou a tomar banho de leito. Ele
precisava de exames então fomos na assistência social pedir para que
eles viessem vê-lo para quem sabe ele pudesse ser internado para fazer
os exames. Na segunda dia 02/05 ele começou a passar mal, ele sentia
dores, e o nariz estava entupido, na terça dia 03/05 a assistência
finalmente veio vê-lo, eles não ficaram nem 40 minutos com ele, só
disseram que não era caso de internação, passaram alguns remédios para
dor e foram embora. Na quarta ele ficou um pouco melhor de manhã, mas
voltou a reclamar de dor a noite. Na quinta, de manhã cedo, eu me lembro
que acordei porque minha tia e ele estavam discutindo... Ele não queria
tomar o remédio. Minha tia me disse para força-lo a tomar se não ela o
internaria a força, ele disse que não, não iria tomar o remédio e que
não queria ser internado, ele não queria sofrer, pois toda vez que ele
se mexia ele sentia dor e ele não queria sair dali.
Eu disse para ele "vamos pai, toma o remédio, vai que ele te faz bem e você melhorar."
Ele
tomou, eu ainda estava sonolenta e voltei para a cama. Acordei meio
tarde já era hora do almoço, liguei o computador pois precisava digitar a
esquete da filmagem do jornal e enviar para o Burura e eu já estava
atrasada com isso. Eu tinha acabado de abrir um janela de bate-papo com o
Alberto e estava escrevendo pra ele que eu não tinha enviado a esquete
ainda porque estava com problemas em casa mas que eu ia começar a
digitar naquele momento e enviar. Eu nem tinha terminado de escrever a
mensagem ainda quando eu ouvi a mulher que trabalha aqui em casa me
gritar, ela gritava que meu pai estava mal. Eu corri, quando cheguei e
perguntei o que ele tinha ele me disse com muito esforço que não estava
conseguindo respirar, fiquei em desespero sem saber o que fazer... Minha
tia estava ligando para o samu, minha mãe estava segurando um
ventilador na direção dele e eu sem saber o que fazer... Não sei o que
me deu na cabeça, meu pai não conseguia respirar, eu segurei ele nos
braços e levantei a cabeça dele pensando que talvez isso o ajudasse a
pegar ar.
Eu vi os últimos suspiros
dele, os olhos dele olhando fixos para cima, lembro da ultima vez que vi
minha avó com vida e ela estava numa cama de hospital, ela estava com
os olhos fixos para cima também.
Depois
que minha avó morreu minha tia fica chorando pelos cantos da casa de
vez enquanto. Eu falava para ela parar e pensar que agora minha avó
estava em um lugar melhor. Agora quem estava chorando era eu, Demorou
para mim ver que ele estava morto, pra mim ele ainda ia dar um suspiro e
voltar a respirar normalmente, fiquei chamando por ele na esperança de
que ele me responderia nem que fosse com apenas um olhar. Minha mãe se
desesperou ao me ver assim, talvez ela tenha pensado que eu ia
enlouquecer, lembro de ouvir ela dizer ao meu namorado que estava aqui
naquele dia: "Tira ela de lá! Tira ela de lá!".
Eu
estava abaixada ao lado da cama segurando meu pai nos braços e elevando
a cabeça dele para que ele pudesse pegar ar e gritando "pai! pai!" ele
era meio surdo, quem sabe ele só não estivesse me escutando.
Jean
pôs a mão no meu ombro e me disse para parar, ele me pediu desculpas e
disse que meu pai já estava sem reação nenhuma e que não iria me
responder não importa o quanto eu gritasse.
Minha fixa caiu, comecei a chorar e chorava gritando, eu não pude fazer nada...
Meu pai morreu em meus braços e eu não fiz nada...
O samu chegou só meia hora depois e chamaram o IML.
Minha
cabeça estava explodindo, estava com raiva, eu culpava a assistência
social, a minha tia, o samu e principalmente a mim mesma.
Por um instante eu decidi que não queria ir ao enterro. Queria me lembrar dele bem.
Mas quem teve que reconhecer o corpo dele no IML fui eu.
Então
decidi ir, e fiquei ao lado dele no velório até ele ser levado ao
cemitério. Entrei mudo e sai calada, nem pra chorar eu abri a boca, meus
olhos choravam em silêncio. Eu sinceramente não sei porque teve
velório, ninguém se importou quando ele estava vivo, porque se importar
agora? Eu só vi o meu padrinho e a minha madrinha apenas duas vezes em
toda a minha vida, quando eu fui batizada (que por sinal eu nem me
lembro porque eu era uma criança que nem se entendia por gente ainda) e
agora, no velório do meu pai.
Eles nunca
me visitaram... E nunca visitaram o meu pai. Meu pai e meu padrinho
eram amigos quando solteiros e até moraram juntos. Onde ele tava quando
meu pai precisou? E no enterro ele foi o que mais "falou bonito".
Enfim...
Após o enterro quando cheguei em casa eu me sentei no chão ao lado da
cama do meu pai bem onde tudo aconteceu... e é sobre esse momento a
minha partitura.

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