domingo, 19 de junho de 2016

PAI

Desculpa o textão...


Meu pai era acamado já fazia 2 anos e eu era uma espécie de ajudante de enfermeira porque eu ajudava uma enfermeira que minha tia tinha contratado, pois além de ser acamado, meu pai tinha uma ferida na perna e isso precisava de cuidados já que ele não conseguia mais trocar os curativos sozinho. Meu pai era carreteiro e trabalhava viajando, eu praticamente fui criada só pela minha mãe e tia e foi em uma dessas viagens que o problema dele começou. Ele teve um acidente na estrada, eu não me lembro bem pois era bem pequena mas me lembro de que eu e minha mãe só descobrimos porque passou na TV, meu pai estava dirigindo e o caminhão tombou, ele saiu com vida, mas a perna foi ferida pelas ferragens e ele tinha batido a cabeça. Lembro de quando ele chegou em casa depois disso, ele não podia ficar se mexendo muito e minha mãe precisou dar banho nele, ele tinha uma parte da cabeça raspada e lá ele recebeu pontos, a perna estava enfaixada com ataduras grossas. 
Depois de um tempo a cabeça dele ficou boa, mas a perna não. Ele trocava os curativos todo dia e não tinha mudança na ferida... Ela simplesmente não fechava. 
Minha mãe decidiu que ele tinha que ir ao médico outra vez e o levou, lembro que ela pagou um tratamento hiperbárico para ele. O tratamento funcionou um pouco mas não fechou completamente a ferida, o tratamento era caro e minha mãe não pode mais pagar por ele. 
O médico disse para o meu pai para ele largar o caminhão e que era melhor ele não viajar mais, porem, meu pai é teimoso e orgulhoso e não quis... Afinal, ele só sabia fazer aquilo.
Assim que ele melhorou ele voltou a viajar, só que, outro acidente aconteceu e a perna voltou a abrir uma ferida e bem no mesmo local. De lá pra cá a ferida nunca mais fechou, porem, ele andava normalmente, saia de casa para fazer suas coisas e tudo, ele só não viajava mais porque minha mãe vendeu o caminhão. 
Há 3 anos atrás ele caiu no meio da rua, foi a primeira queda dele, como eu disse ele era orgulhoso e não queria ajuda e nem pena de ninguém, a gente só ficou sabendo por os vizinhos disseram. A partir daí eu comecei a ir com ele a todo lugar ou então eu ia pra ele resolver as coisas dele, apostas na loteria por exemplo rsrs.
Um dia ele quis ir ao supermercado e eu fui com ele, nesse dia ele teve a segunda queda. Precisei pedir ajuda aos estranhos mas ele se recusou, queria levantar sozinho. Mai pai era forte, passou por muita coisa na vida eu acho, só sei que ele sempre foi sozinho, eu não conheço ninguém da família dele, nem minha mãe conhece. Depois desse dia meu pai não saiu mais de casa. Faz uns 10 anos que meus pai eram separados, eles não dormiam no mesmo quarto, minha mãe dormia no meu e meu pai ficava com o quarto de casal. Minha mãe dizia que não suportava o cheiro que vinha dele, a perna dele cheirava mal... Ele cuidava da perna sozinho e talvez não cuidasse direito, as vezes eu pensava que talvez ele não queria mais ir ao médico com medo que amputassem a perna. Talvez isso tivesse sido até melhor...
Minha mãe já não estava mais nem aí pra ele, meu irmão é autista e não entende o que é bem ou mal, dor ou sofrimento, meu irmão vive em um universo próprio. Minha tia tinha a minha avó para se preocupar, minha avó tinha Alzheimer e esclerose múltipla. Eu não sabia o que fazer.
A terceira queda foi decisiva pra ele decidir para de levantar da cama, ele tinha perdido a força das pernas.
Há dois anos atrás ele deitou na cama e não levantou mais, pelo menos não sozinho. 
Minha avó tava que passar por uma cirurgia que tirou uma pedaço do pé dela e então minha tia contratou uma enfermeira para que cuidasse da ferida até ela cicatrizar, essa era a chance, perguntei se ela poderia ver a ferida do meu pai também. A enfermeira disse que era uma ferida muito mal cuidada e que precisaria ser limpa, minha tia decidiu ser boa pessoa e pagou um pouca a mais para que ela cuidasse do meu pai também. Porem, meu pai não levantava mais (o máximo que ele conseguia era ficar sentado) e ele precisava tomar banho, a ideia era eu segurar meu pai pelas costas, levantar ele da cama e colocar ele em uma cadeira de rodas e isso deu certo já que a enfermeira me ajudava, levávamos ele ao banheiro e dávamos banho, voltávamos ela trocava o curativo dele limpando bem a ferida e passando remédio. Tudo tava dando certo até que minha avó não precisava mais da enfermeira, então minha tia decidiu que meu pai também não. Minha tia disse que eu podia muito bem fazer o trabalho da enfermeira já que eu via ela fazer todos os dias, a partir daí fui eu que comecei a limpar a ferida e trocar as ataduras sozinha. A parte do curativo não era um problema, afinal eu realmente aprendia fazer, o problema era na hora do banho, não tinha ninguém para me ajudar a por ele na cadeira. Comecei a chamar o meu irmão para me ajudar, mas ele não conseguia fazer do jeito certo, acabei por dar um mal jeito no joelho direito por causa do esforço que eu fazia em levantar o meu pai da cama, mas depois de um tempo meu irmão conseguiu me ajudar a fazer de um jeito certo.
Bom... Minha avó morreu dia 14/06 do ano passado. Moro em uma casa de dois andares, tipo um duplex, minha tia morava com minha avó em cima enquanto eu, minha mãe, pai e irmão morávamos embaixo. Minha tia decidiu que não queria viver sozinha mas que não iria descer pra morar com a gente, ela fez a gente subir para morar com ela. Eu juro, meu pai tava muito melhor lá embaixo. Foi só ele subir que ele começou a ficar mal, ele perdeu muito peso e começou a dar feridas em outros lugares do corpo dele. Eu fiquei desesperada, ele dizia que sentia muito mais dores e nem ficar sentado ele conseguia mais, ele também começou a reclamar de cegueira. Chamei a enfermeira de volta e ela trouxe consigo um médico, eles fizeram uns exames e pediram outros, meu pai começou a tomar banho de leito. Ele precisava de exames então fomos na assistência social pedir para que eles viessem vê-lo para quem sabe ele pudesse ser internado para fazer os exames. Na segunda dia 02/05 ele começou a passar mal, ele sentia dores, e o nariz estava entupido, na terça dia 03/05 a assistência finalmente veio vê-lo, eles não ficaram nem 40 minutos com ele, só disseram que não era caso de internação, passaram alguns remédios para dor e foram embora. Na quarta ele ficou um pouco melhor de manhã, mas voltou a reclamar de dor a noite. Na quinta, de manhã cedo, eu me lembro que acordei porque minha tia e ele estavam discutindo... Ele não queria tomar o remédio. Minha tia me disse para força-lo a tomar se não ela o internaria a força, ele disse que não, não iria tomar o remédio e que não queria ser internado, ele não queria sofrer, pois toda vez que ele se mexia ele sentia dor e ele não queria sair dali. 
Eu disse para ele "vamos pai, toma o remédio, vai que ele te faz bem e você melhorar." 
Ele tomou, eu ainda estava sonolenta e voltei para a cama. Acordei meio tarde já era hora do almoço, liguei o computador pois precisava digitar a esquete da filmagem do jornal e enviar para o Burura e eu já estava atrasada com isso. Eu tinha acabado de abrir um janela de bate-papo com o Alberto e estava escrevendo pra ele que eu não tinha enviado a esquete ainda porque estava com problemas em casa mas que eu ia começar a digitar naquele momento e enviar. Eu nem tinha terminado de escrever a mensagem ainda quando eu ouvi a mulher que trabalha aqui em casa me gritar, ela gritava que meu pai estava mal. Eu corri, quando cheguei e perguntei o que ele tinha ele me disse com muito esforço que não estava conseguindo respirar, fiquei em desespero sem saber o que fazer... Minha tia estava ligando para o samu, minha mãe estava segurando um ventilador na direção dele e eu sem saber o que fazer... Não sei o que me deu na cabeça, meu pai não conseguia respirar, eu segurei ele nos braços e levantei a cabeça dele pensando que talvez isso o ajudasse a pegar ar. 
Eu vi os últimos suspiros dele, os olhos dele olhando fixos para cima, lembro da ultima vez que vi minha avó com vida e ela estava numa cama de hospital, ela estava com os olhos fixos para cima também. 
Depois que minha avó morreu minha tia fica chorando pelos cantos da casa de vez enquanto. Eu falava para ela parar e pensar que agora minha avó estava em um lugar melhor. Agora quem estava chorando era eu, Demorou para mim ver que ele estava morto, pra mim ele ainda ia dar um suspiro e voltar a respirar normalmente, fiquei chamando por ele na esperança de que ele me responderia nem que fosse com apenas um olhar. Minha mãe se desesperou ao me ver assim, talvez ela tenha pensado que eu ia enlouquecer, lembro de ouvir ela dizer ao meu namorado que estava aqui naquele dia: "Tira ela de lá! Tira ela de lá!".
Eu estava abaixada ao lado da cama segurando meu pai nos braços e elevando a cabeça dele para que ele pudesse pegar ar e gritando "pai! pai!" ele era meio surdo, quem sabe ele só não estivesse me escutando.
Jean pôs a mão no meu ombro e me disse para parar, ele me pediu desculpas e disse que meu pai já estava sem reação nenhuma e que não iria me responder não importa o quanto eu gritasse. 
Minha fixa caiu, comecei a chorar e chorava gritando, eu não pude fazer nada... 
Meu pai morreu em meus braços e eu não fiz nada...
O samu chegou só meia hora depois e chamaram o IML.
Minha cabeça estava explodindo, estava com raiva, eu culpava a assistência social, a minha tia, o samu e principalmente a mim mesma.
Por um instante eu decidi que não queria ir ao enterro. Queria me lembrar dele bem. 
Mas quem teve que reconhecer o corpo dele no IML fui eu.
Então decidi ir, e fiquei ao lado dele no velório até ele ser levado ao cemitério. Entrei mudo e sai calada, nem pra chorar eu abri a boca, meus olhos choravam em silêncio. Eu sinceramente não sei porque teve velório, ninguém se importou quando ele estava vivo, porque se importar agora? Eu só vi o meu padrinho e a minha madrinha apenas duas vezes em toda a minha vida, quando eu fui batizada (que por sinal eu nem me lembro porque eu era uma criança que nem se entendia por gente ainda) e agora, no velório do meu pai.
Eles nunca me visitaram... E nunca visitaram o meu pai. Meu pai e meu padrinho eram amigos quando solteiros e até moraram juntos. Onde ele tava quando meu pai precisou? E no enterro ele foi o que mais "falou bonito". 
Enfim... Após o enterro quando cheguei em casa eu me sentei no chão ao lado da cama do meu pai bem onde tudo aconteceu... e é sobre esse momento a minha partitura. 


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